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Indignação proposicional

A indignação proposicional resulta de sermos testemunhas de uma malfeitoria, mas sem um malfeitor específico ou definido por detrás. É um tipo de indignação que coloca sobre a nossa sociedade um dilema de contornos por vezes terríveis. A ausência de um alvo concreto para esta raiva é particularmente sentida por nós, levando-nos a uma busca frenética e, a maior parte das vezes, não muito refletida, de um culpado, de um responsável. Assim, a nossa necessidade premente de um culpado, que alivie a nossa angústia e o nosso anseio de lutar contra um inimigo de carne e osso, torna fácil a algum Poder sem escrúpulos fazer-nos acreditar num culpado qualquer. E nós colaboramos quando desligamos o filtro da razão. Por exemplo, indignamo-nos contra a miséria e é, então, fácil levarem-nos a acreditar que quem causou essa miséria foram e são os emigrantes ou os ciganos ou os negros ou os judeus, por mais fantasiosa que seja esta ligação.

Cidades-estado de ontem, nacionalismos de hoje

« O fator geográfico será, pois, quando muito, uma das causas a apontar [para a « eclosão do sistema » da polis ou cidade-estado]. Outra, que já tem sido indicada com mais razão, é que a insegurança posterior à chamada invasão dórica e a falta de um poder central forte que defendesse os homens os levou a unir-se em pequenos territórios. » Leio estas palavras de Maria Helena da Rocha Pereira no seu livro Estudos de História da Cultura Clássica – I Volume – Cultura Grega , 2012, 11ª ed., Fundação Calouste Gulbenkian, p. 171. E imediatamente me vem ao espírito a atual situação política da Europa. Veja-se um raciocínio dentro da linha citada acima: Os Europeus, sentindo-se inseguros com a globalização e com as consequências do colapso financeiro de 2008 não tiveram um poder central forte que os defendesse. Aqui a ênfase está na palavra “defendesse”, não na frase "poder central forte", porque isto eles tiveram. Só que foi um poder usado para impor uma austeridade violenta, s...

Escrever vs. ler

Escrever é tentar compreender o mundo e os outros. Escreve-se num movimento duplo: afastando e incorporando. Às vezes, triplo: e esquecendo (porque compreender antecede o saber mas não é o mesmo que saber). Quanto mais claro para nós for o que escrevermos, mais avançados estamos no nosso trabalho de compreender. Já ler é lidar com a tristeza. Parece uma frase construída apenas para obter um efeito fácil e banal – então aqueles que, felizes ou pelo menos alegres, também são leitores? Existirão?, pergunto eu. Anotemos que ler não é o mesmo que ser leitor. Ler, todos lemos. Mas vou admitir que existem. A minha conjetura é que esses leitores contentes e satisfeitos têm, como todos nós, as suas zonas de sombra. Não me refiro, evidentemente, à sombra expansiva que serve para nos refugiarmos e nos refrescarmos do sol insuportável; mas, sim, àquela que, pelo contrário, é bem mais oculta e opressiva. Assim, talvez para todos nós, felizes ou infelizes, ler seja encontrar o lu...

Elogio da auto depreciação

Parece estranho alguém depreciar-se. Em privado, todos temos essa experiência. Em público, é menos comum alguém realizá-la. Eu não sou diferente dos demais, mas às vezes desvalorizo-me embora sob a máscara de uma certa superioridade desdenhosa de quem não precisa de elogios, nem dos próprios nem dos alheios. Não aqui. O que pretendo neste microensaio é apenas esclarecer os motivos que me levam a fazê-lo em público, sem uma ordem hierárquica de importância. O principal e óbvio, que não é um verdadeiro motivo mas mais uma constatação, é que me deprecio para dar razão aos que me depreciam. Como sei que me depreciam? É simples, vendo como não me ligam absolutamente nada quando estou com eles. Se é assim, então porque me dou ao trabalho de lhes dar razão? Em primeiro lugar, o que me leva a fazê-lo, com determinação no tom e ênfase no conteúdo, é não os deixar ter o prazer de me contrariarem e, ainda por cima, de me provarem, ironicamente e com facilidade excessiva, que eu po...

Antecipando a compra

Comprar é desistir de fruir. Antes de comprar, vou desfrutando das imensas possibilidades de fruição que um objeto não existente permite imaginar. Uma vez comprado, há algo que se esgota, que se apaga. Entre mãos, ficamos com um objeto tão concreto que já pouco tem a prometer. Pior, com o tempo, infelizmente breve tempo, ele acaba por se ocultar na poeira caprichosa do esquecimento.