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Cidades-estado de ontem, nacionalismos de hoje

«O fator geográfico será, pois, quando muito, uma das causas a apontar [para a «eclosão do sistema» da polis ou cidade-estado]. Outra, que já tem sido indicada com mais razão, é que a insegurança posterior à chamada invasão dórica e a falta de um poder central forte que defendesse os homens os levou a unir-se em pequenos territórios.»

Leio estas palavras de Maria Helena da Rocha Pereira no seu livro Estudos de História da Cultura Clássica – I Volume – Cultura Grega, 2012, 11ª ed., Fundação Calouste Gulbenkian, p. 171.

E imediatamente me vem ao espírito a atual situação política da Europa. Veja-se um raciocínio dentro da linha citada acima:

Os Europeus, sentindo-se inseguros com a globalização e com as consequências do colapso financeiro de 2008 não tiveram um poder central forte que os defendesse. Aqui a ênfase está na palavra “defendesse”, não na frase "poder central forte", porque isto eles tiveram. Só que foi um poder usado para impor uma austeridade violenta, sem as pessoas perceberem o que é que tinham feito de mal para assim serem tão duramente castigadas.

Em face dessa insegurança e da falta sentida de quem os defenda, a reação natural dos europeus é afastarem-se da União Europeia e encerrarem-se nos seus pequenos territórios nacionais.

A História repete-se porque os políticos (europeus) que a ignoram condenam os outros a repeti-la.

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